Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

ruído

ruído


Ode à falta.

por Joana Raposo Gomes, em 28.11.16

four-darks-in-red.jpg

 

 (Mark Rothko, 1958)

Foquemo-nos nas despedidas: abraçamo-nos, beijamo-nos e, confortavelmente, brindamos olhares com um até já. Aliviamos, nesse até já, o medo de que não exista reencontro, juntando-lhe a certeza daquele telefonema, daquela mensagem escrita, daquele e-mail, daquele post no facebook, daquela imagem no instagram, daquela sempre presença em todo o lado, sozinhos nunca, obrigada não é preciso e mesmo que seja preciso, não é possível.

 

Aí vamos nós, viramos costas, confortáveis, sem a angústia da incerteza. Viramos as costas, como se a qualquer momento, pudéssemos dar mais uma lambidela naquele doce que temos como garantido. Prazer e conforto, à distância de um ecrã, pequeno ou grande, tanto dá, desde que lá caiba o que procuramos para engordarmos a sensação anunciada da falta. Falta de quê? Pouco paramos para pensar na falta que sentimos. Tal como a sede e a fome se confundem e enganam a nossa percepção, as nossas faltas de algo também parecem estar pouco claras no nosso universo. A falta, seja do que for, é preenchida com o ritual, com a caloria rapidamente absorvível, que vai directa para as ancas, mal se lhe sentiu o sabor.

 

Naquele virar de costas, naquela despedida breve, naquele até já com retorno, onde há lugar para a força do abraço ou do beijo? Onde olhámos fotograficamente os olhos dos que nos diziam algo? Onde gravamos as palavras dos que nos sussurraram algo tímido, envolto na vergonha de expressão emocional, essa que está reservada às florzinhas? Para quê, não é? Ao menor sinal de lembrança, memória ou curiosidade, basta abrir os olhos ou atender o telefone. Lá está. Nada de faltas, nada de saudades. Ah isso, coisa do passado Português! Saudades, essas que, segundo dizem, nos impulsionam para trás e não nos deixam ser bons com os números da economia.

 

Adeus à falta! Já não sentimos falta de ninguém, estamos sempre juntos, sempre disponíveis, sempre contactáveis, sempre a nú. Moramos na janela indiscreta e somos o voyeurismo que, de boca escandalosamente aberta, criticamos – inaceitável, meus caros! Isso é coisa de tarados! Qual quê! Já não desejamos ninguém no anonimato, na ideia quase cósmica de que os pensamentos se possam cruzar na linha do tempo. Bip Bip Mensagem escrita: também penso em ti, querida.

 

Vivemos no até já, no encontro rápido, no ultra-rápido e virtual, onde a emoção visceral está separada do encontro por um fosso. Sempre que quisermos, à hora que quisermos, a informação que desejarmos, o que faz com que não haja espaço para a imaginação do encontro, para o desenhar da expectativa e para o tolerar da frustração. O homem, esse gosta é da pornografia da notícia. O silêncio não é boa notícia, como alguns tacanhos do antigamente alguma vez pensaram. Provavelmente, sem darmos noticias, sairemos no jornal como desaparecidos, acidentados, assassinados e rapidamente seremos esquecidos. Daqui é um passo para o aumento das nossas ansiedades de aniquilação. O medo do esquecimento povoa-nos assim o subconsciente. Medo de nos volatilizarmos se nos mantivermos fora da tendência da sobrepresença.

 

Em sobrepresença, desinteressamo-nos pelo pormenor, dominados que estamos pela ideia utópica de satisfação à distancia de um botão.

Sempre lá, sempre cheios de amizades, sempre rodeados de presenças. Mas, quais dessas já nos quiseram ouvir e saber? E quais desses momentos foram exclusivos, com interesse genuíno na partilha? Quantas vezes foi cultivada a força do adeus, esse que encerra a conversa e alimenta, caso seja caso disso, o desejo do reencontro?

Nunca estamos sós. Abaixo a saudade. Se nos vemos ou falamos no imediato, a beleza da falta não nos move, procuramo-nos menos – pelo menos com menor motivação para o outro.

E nas poucas faltas que sentimos, o prazer será rapidamente alimentado, sem acumular o negativo da espera e do desejo. Procuramos o positivismo do imediato, sem nos darmos conta que destruímos a profundidade dos estados emocionais mais construídos, sem vermos o que de belo pode existir na ansiedade da espera.

 

As folhas brancas das cartas sofrem desse mal, do mal da ausência. Olham-nos e entram-nos nos pensamentos, forçam-nos a imaginar o rosto de quem nos faz falta, satisfazem-nos na certeza de sermos ouvidos, mesmo sem maquilhagem e sem selfie.

Sem falta e com noticias instantâneas, cuidamos menos, surpreendemo-nos nunca. Não existem abraços viscerais ou medo do não regresso. Estamos sempre perto, sem ser notada a solidão que está remetida ao interior de cada um. Há um convencimento geral de segurança grupal, onde cada qual pouco sabe da existência real do outro e onde não há espaço para a criação através da lembrança.

A tendência continua epopeica: vivemos em corpos emprestados, de homens irremediavelmente sós.

 

 

Que se reproduzam as excepções.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Favoritos