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ruído

ruído

Primeira gota

a que te atinge sem retorno

trazendo o sabor da partida.

Segunda gota

a que esperas

e que te põe a pele ao comando do tacto.

Terceira gota

a tua trégua à intenção sem remos

onde segues viagem sem sentir cansaço.

Quarta gota

inundação do caminho

remoinhos de medo e caras sem nome.

 

Estagnação da nascente.

 

Submersão

das horas adormecidas.

 Subitamente o fôlego

 

 

e o dia lá fora à tua espera

enquanto calças as meias e os sapatos.

 

 

 

in nial, 5100-127 • Sound installation in Castel's cistern • ZONA - Residências Artísticas de Lamego • TRC ZigurFest


Sampling

por Joana Raposo Gomes, em 04.09.17

Queria que ao longe me ouvisses os olhos recém enevoados

onde de repente mora a Saudade que vem à tona das lonjuras

e onde eu deito a cabeça

bem devagar, nessa almofada do sofá

que de súbito é o teu colo

onde os pés estão virados para a lareira

e o olhar, esse demora-se no relógio de pêndulo

num oscilar crescente dando corda aos centímetros dos meus ossos.

 

E é aí, quando finalmente já não caibo no sofá,

que abres a porta de casa e vais à janela

enquanto eu viro costas e saio com o entusiasmo na mochila.

E tu continuas à janela

com esses olhos de lonjuras que nunca te cheguei a ver

Desculpa, ia de frente para a vida

e tu, sempre de olhos na minha alegria

 

Nunca te vi a expressão,

mas tenho esta a fotografia que te fiz

De costas, é verdade, como pode ser?

Soa a mistério genético ou a química transcendental

Coisa para arrepiar homens das ciências

e a mim, que gozava da prepotência

de pensar no amor como produto de neurotransmissores

 

É verdade

nunca olhei para trás para te saber à janela,

e hoje trago nos olhos esse retrato que te fiz

cheio de luz, contraste e definição

Imagine-se!

E sem nunca precisar de reveladora.

Trago a névoa que trazias aos olhos da janela,

e trago no rosto a expressão que me pintaste

e as palavras que um dia pensei de zanga:

Nunca, nunca hei-de ser assim!

 

Pois é,

parece que a tua pintura

virou sample de música electrónica

e agora

é a tua expressão reinventada na minha pele

e música transgeracional a ecoar na varanda da minha casa.


frente a frente

por Joana Raposo Gomes, em 19.07.17

Captura de ecrã 2017-07-19, às 23.11.33.pngnão escondas dos olhos

esse som de animal magoado
enquanto eles dão voltas aos dias
sem saberem das lágrimas que gritaram
nem da voz que comeu a dor escondida na cave de cimento,
onde se refugiou a esperança gelada
e onde hoje gostariam de voltar

enquanto se regeneram cansados

 

 

#pedrogaogrande2017


dia de mar

por Joana Raposo Gomes, em 07.05.17

2017-05-07 13.27.15.jpg

 

É de frente para o mar que sei o que te escrever


Pode ser estranho
(ou tolo até)
Pôr-me de frente para o mar
a pensar nesse teu ser de planalto
lá onde os olhos se perdem no horizonte
e onde nascem freixos fortes
amparados na bravura dos que os mantêm

 

Pode ser estranho
(Ou tolo até)
mas, tudo o que trago no olhar

é onde te vejo

 

Pode ser tolo
(Ou estranho até)
Mas é neste azul

que vejo a paz que me pintaste no horizonte
(e só os pacíficos intranquilos se aventuram)
e é neste azul dourado
onde viaja o calor do teu carinho

que cabem todas as minhas lágrimas

sempre que as há

 

(Não é tolo e tu sabes bem)
Só nos olhos de quem sonha
se pode fazer crescer mais um sonho
Só nos olhos de quem pensa
se pode desenvolver o pensar
Só nos olhos de quem arrisca
se aprende a ganhar coragem

 

Pode ser tolo
(ou estranho até)
para ti que te vês de frágil
e eu que te vejo de força
para ti que te vês pequena
e eu que te vejo imensa
para ti que te vês medrosa
e eu que te vejo capaz

 

Descobri-te!
(por esta não contavas tu)
Atrás dessa cortina que trazes
(ou que o mundo te foi pondo)
ainda estão os sonhos
ainda te sei as vontades
ainda nascem desafios
ainda medram vitórias

 

Ensinaste-me a dar graças
com essa bondade natural
sem maquilhagem de altruísmo forçado
onde só olhos de brilho
(aqueles que nunca perderam a verdade de ver além)
te encontram nesse sentido tão puro

 

Ensinaste-me a cantar
e a querer inventar mais canções
Sorriste de volta
em cada nota desafinada
e em cada história desencantada
(lá onde os sorrisos validam o ser)

 

Há reflexos teus na ondulação
nessa doçura da irregularidade
(superfícies planas magoam-me os olhos)
E tu
(sim tu não vires a cara!)
fazes-me amar a imperfeição

 

Parece estranho
(ou muito tolo até)
mas é nessa verdade

que aprendo a amar os precalços

e a não apedrejar o futuro
É onde se mostram os dentes
e se sabe voltar a sorrir
é onde se permite o ódio

e onde se partilha o amor

 

És mestre em ensinar a liberdade num tom maior

e em não varrer emoções para baixo do tapete

  

Letras letras letras
(Que tolo ou estranho só)

 

Talvez seja amor
É isso

apenas
Tudo!

 

É amor sem condição

que se espelha nos meus olhos

E é a tua ternura trazida pelas ondas

essa que nunca me falha

enquanto eu para cá ando a viver.

 

 

 


relógio.

por Joana Raposo Gomes, em 05.04.17

Encosto a cabeça no fio

tenso, dirigido.

E com que fim?

 

Encosto os olhos no vidro,

bem perto

com visão esfumada em aguarela.

Espreitando, vendo, adivinhando... O quê?

 

Caminho em sapatos limpos

em chão polido,

em dias contados, programados.

Sôfrego caminhar apressado. Cansada

 

da doce ilusão de quem espera

Por quem, para quê?

Como quem adia com clareza

uma ilusão esperada.

 

Desesperado

sonhar, adiado, esperado, esfumado.

E com que fim?

 

Dias iguais...

Como quem busca

a paixão dos segundos, em que não sabendo nada

sabia s e N Ti r


desta inquietude oculta...

por Joana Raposo Gomes, em 18.11.16

A inquietação...

Somente inquietação. Porquê não sei, não sei... 

Quantas vezes a sentimos e quantas vezes a negligenciamos. A inquietação é remetida para o nosso interior, para o mais interno da nossa vida física e emocional. Tem raízes no corpo, embora se origine na mente. Entra-nos nos músculos, electrifica-os, acumula energia em forma de tensões, de dores impulsionadoras de corridas desenfreadas, mas sem rumo, não deixa parar, não deixa recuperar, não...

É difícil aguentá-la, à inquietação, sobretudo se não lhe soubermos a presença. Aloja-se nos pulmões, na garganta, oprime, mais do que deixa exprimir, respira-nos, sem nos deixar respirar. Intranquilamente inquietos... Por não lhe sabermos o paradeiro.

O inquieto, aquele que sofre da inquietação, não pára, produz, é socialmente aceite na sua inquietação - não usa o seu leme, mas o leme da multidão. A inquietação é camuflada em hipermovimentação, em hiperaceleração, em hiperdesumanização. O interior inquieto é escondido pelo orgulho irremediável do infalível.

Que ninguém lhes olhe o interior inquieto! Ao serem percebidos, os inquietos indefinidos, sorrir-vos-ão de forma ansiosa, desconcertar-vos-ão nas vossas certezas. Socialmente simpáticos, actores exímios da firmeza que não sentem, do bem-estar de que não são donos, marcham firmes no que a sociedade lhes pede.

Esta sociedade não é para frágeis. O que os inquietos indefinidos não sabem, é que não são frágeis, nem sabem que há mais como eles, onde se poderiam amparar caso se auto-revelassem.

Não sabendo identificar o que sentem, ou negando a tal inquietação, com vergonha própria por serem únicos na insatisfação, afastam tranquilidades por não terem tranquilidade para sentir.

É mais fácil ignorá-la, à inquietação. Não vá ela fugir-nos do interior e espelhar-se nos rostos dos que nos rodeiam. Se nos sabem inquietos, podem saber-nos falíveis e, neste mundo, o falível pode ser comido vivo, mastigado e cuspido após alguma refeição satisfatória para quem se alimentou. Assim pensamos...

Andamos todos bem, somos todos incríveis, temos de o ser. Espera-se resistência, igual à das máquinas de metal, esperam-se poucos erros de mecânica emocional, deus nos livre, essa leva muito tempo a ser curada, e tempo, ah esse não temos obrigada. Sintam-se pressionados a não saber de onde vem a inquietação.

A inquietude pode abrir-vos as goelas se a identificarem, pode desbloquear-vos a rotina e ser inconveniente aos olhos daqueles que estão por cima nesse prédio social. É melhor ignorá-la, é sim senhor, ou ainda acabamos lixados e mal-sucedidos, alienados do estatudo de pessoa impecável - que agrada a todos menos a si, tão favorável no mundo das hierarquias. Estamos sempre bem, obrigada... Não lhe ponhamos nome, às nossas ansiedades, demitamo-nos de pensar. Inquietos, mas sem o saber. Hiperactivos, sem calma no pensar.

 A inquietação suspira-se, coloca-nos no amanhã incerto, desapega-nos do conforto e alerta-nos para o pouco certo de tudo o que nos envolve.

A inquietação faz-nos mágicos no pensamento, coloca a certeza na existência da premonição. Porquê? Não sei. Não sei ainda. Mas há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber... E cheios de energia, inquietos, cansamo-nos, esgotamo-nos, descontrolamo-nos no básico do ser. Engordamos, emagrecemos, transpiramos, congelamos, emudecemos, não nos calamos, fugimo-nos...

Da inquietação sabemos pouco, até porque para a sabermos, teremos de saber do que somos e para isso não fomos treinados. A inquietação não tem nome, viaja na ansiedade, esconde-se na fragilidade do conhecimento, ocupa-nos sem lhe sabermos o porquê.

Da inquietação pouco sabemos, mas também é difícil saber de algo, quando não aprendemos a saber ler o que trazemos connosco, na pele, no estômago, nos músculos, na garganta, na respiração.

Se os inquietos soubessem que podem fazer uso positivo das suas inquietações, qual trampolim de lançamento para a acção estruturada ou para a aceitação apaziguadora, caíam as armaduras por terra e seria a salvação do genuíno. Se não lhe soubermos a morada nem o nome, não a aprendemos a usar. Nem saberemos como agir. Esconde-se bem a inquietação! Rasteja-nos e consome-nos, ocultando-nos o amor auto-punitivo que nos tem. Se a deixássemos revelar-se e a usássemos, seria o seu fim, a nossa tranquilidade.

Neste ser estoico e marmóreo, inquieto sem o saber, não há lugar para a poesia.

O que é certo, é que ao senti-la, à inquietação, não há como deixar de a usar. E é bom, mesmo quando não o é.

“Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer 
Qualquer coisa que eu devia resolver 
Porquê, não sei 
Mas sei 
Que essa coisa é que é linda...”

 

https://www.youtube.com/watch?v=k9piD20FfBs

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