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ruído

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Heróis do mar!

por Joana Raposo Gomes, em 14.05.17

 

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Os dias das vitórias heróicas sabem a êxtase português. E sabem bem. Só por um bocadinho assim. Subitamente somos inundados por um sentido comum brutal, onde o responsável pela vitória somos: Todos! Não importa se não somos católicos, ou se achamos o Papa só um homem como o nosso vizinho do lado (só que faz menos queixas e é mais simpático), em dia de Portugal, somos todos #chicos e subitamente tomados pela salvação divina (que bem precisamos, pese a nossa situação), paramos e vestimos de vermelho, porque Benfica é Portugal! E tendemos a achar que o nome Eusébio está na moda e chamamos Eusébio Santa Comba ao nosso herdeiro (ele sim, o salvador do nosso futuro!). Pensando bem, neste mar de vitória, numa estratégia ousada de marketing, eu se fosse o Salvador, passar-me-ia a chamar Sebastião Sobral (não muda muito e pode dar jeito). Porque nós Portugueses, ainda sofremos desse sebastianismo, desse "à espera que alguém venha de fora e nos auto-estime, que alguém desça dos céus e nos ilumine, que alguém (nós? Nunca!) pegue num microfone e faça uma canção para nos alegrar (mas calma lá, que só lá vamos bater palminhas se o indivíduo se mostrar promissor de vitória. Para segundo ou terceiro não vale a pena). Pois é, pelo menos desta vez, injectou-se uma dose do que pode ser música no coração da eurovisão. Mas nesta mesma noite, amanhã e nos próximos dias, os teatros continuarão vazios, os poetas serão loucos, os actores sem eira nem beira, os músicos a ter de servir às mesas, o ensino superior a emigrar e daqui por 1 ano, o Salvador até poderá ir às festas da cidade para encher a praça. Não porque é o Salvador Sobral, mas porque nos tirou momentaneamente do tédio e marasmo em que andamos. Pois é, o Salvador que potencialmente temos dentro de nós, continua hoje a rezar, ou de ressaca ou a limpar a casa. Fazer festa com a nossa tristeza pode ajudar, sim senhor. E identificarmo-nos alegremente, ainda mais. Mas na verdade, ontem cumpriu-se Deus, pátria e família e hoje não anda ninguém de cravos na mão. Tal como já andaram poucos cravos nas ideias de 74 - se assim tivesse sido, hoje éramos todos #Salvador como arquétipo de arte (da qual cuidaríamos diariamente) em vez de cantarmos este fado de fome descontente, continuamente à espera de um milagre, sem nos auto-estimarmos de dentro para fora. Eu acho que lá fora já olharam para nós, ou não estivéssemos sempre em várias miras. E nós, de que gostamos? Relaxem, aproveitem o Domingo, coisas chatas a esta hora desviam dessa embriaguez em recuperação e eu é que tenho liberdade a mais para escrever baboseiras destas. Minha culpa.

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