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ruído

ruído


Sampling

por Joana Raposo Gomes, em 04.09.17

Queria que ao longe me ouvisses os olhos recém enevoados

onde de repente mora a Saudade que vem à tona das lonjuras

e onde eu deito a cabeça

bem devagar, nessa almofada do sofá

que de súbito é o teu colo

onde os pés estão virados para a lareira

e o olhar, esse demora-se no relógio de pêndulo

num oscilar crescente dando corda aos centímetros dos meus ossos.

 

E é aí, quando finalmente já não caibo no sofá,

que abres a porta de casa e vais à janela

enquanto eu viro costas e saio com o entusiasmo na mochila.

E tu continuas à janela

com esses olhos de lonjuras que nunca te cheguei a ver

Desculpa, ia de frente para a vida

e tu, sempre de olhos na minha alegria

 

Nunca te vi a expressão,

mas tenho esta a fotografia que te fiz

De costas, é verdade, como pode ser?

Soa a mistério genético ou a química transcendental

Coisa para arrepiar homens das ciências

e a mim, que gozava da prepotência

de pensar no amor como produto de neurotransmissores

 

É verdade

nunca olhei para trás para te saber à janela,

e hoje trago nos olhos esse retrato que te fiz

cheio de luz, contraste e definição

Imagine-se!

E sem nunca precisar de reveladora.

Trago a névoa que trazias aos olhos da janela,

e trago no rosto a expressão que me pintaste

e as palavras que um dia pensei de zanga:

Nunca, nunca hei-de ser assim!

 

Pois é,

parece que a tua pintura

virou sample de música electrónica

e agora

é a tua expressão reinventada na minha pele

e música transgeracional a ecoar na varanda da minha casa.


dia de mar

por Joana Raposo Gomes, em 07.05.17

2017-05-07 13.27.15.jpg

 

É de frente para o mar que sei o que te escrever


Pode ser estranho
(ou tolo até)
Pôr-me de frente para o mar
a pensar nesse teu ser de planalto
lá onde os olhos se perdem no horizonte
e onde nascem freixos fortes
amparados na bravura dos que os mantêm

 

Pode ser estranho
(Ou tolo até)
mas, tudo o que trago no olhar

é onde te vejo

 

Pode ser tolo
(Ou estranho até)
Mas é neste azul

que vejo a paz que me pintaste no horizonte
(e só os pacíficos intranquilos se aventuram)
e é neste azul dourado
onde viaja o calor do teu carinho

que cabem todas as minhas lágrimas

sempre que as há

 

(Não é tolo e tu sabes bem)
Só nos olhos de quem sonha
se pode fazer crescer mais um sonho
Só nos olhos de quem pensa
se pode desenvolver o pensar
Só nos olhos de quem arrisca
se aprende a ganhar coragem

 

Pode ser tolo
(ou estranho até)
para ti que te vês de frágil
e eu que te vejo de força
para ti que te vês pequena
e eu que te vejo imensa
para ti que te vês medrosa
e eu que te vejo capaz

 

Descobri-te!
(por esta não contavas tu)
Atrás dessa cortina que trazes
(ou que o mundo te foi pondo)
ainda estão os sonhos
ainda te sei as vontades
ainda nascem desafios
ainda medram vitórias

 

Ensinaste-me a dar graças
com essa bondade natural
sem maquilhagem de altruísmo forçado
onde só olhos de brilho
(aqueles que nunca perderam a verdade de ver além)
te encontram nesse sentido tão puro

 

Ensinaste-me a cantar
e a querer inventar mais canções
Sorriste de volta
em cada nota desafinada
e em cada história desencantada
(lá onde os sorrisos validam o ser)

 

Há reflexos teus na ondulação
nessa doçura da irregularidade
(superfícies planas magoam-me os olhos)
E tu
(sim tu não vires a cara!)
fazes-me amar a imperfeição

 

Parece estranho
(ou muito tolo até)
mas é nessa verdade

que aprendo a amar os precalços

e a não apedrejar o futuro
É onde se mostram os dentes
e se sabe voltar a sorrir
é onde se permite o ódio

e onde se partilha o amor

 

És mestre em ensinar a liberdade num tom maior

e em não varrer emoções para baixo do tapete

  

Letras letras letras
(Que tolo ou estranho só)

 

Talvez seja amor
É isso

apenas
Tudo!

 

É amor sem condição

que se espelha nos meus olhos

E é a tua ternura trazida pelas ondas

essa que nunca me falha

enquanto eu para cá ando a viver.

 

 

 

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