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ruído

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Da fragilidade da condição humana à eutanásia

por Joana Raposo Gomes, em 27.05.18

Começo pelo princípio de quem tem dúvidas. Imensas. Mesmo enquanto escreve. Assumo ainda a minha visão: médica, ligada à saúde mental e apoiada pela razão que tento encontrar nos dias.

Amor e morte – os polos por entre os quais nos movemos. A doença coloca-nos perto do instinto de morte - tanatos, mas não necessariamente na premissa de que o iremos escolher – em vida. Perante a fragilidade, os nossos sentidos reatualizam-se e confrontamo-nos com um período de crise no qual tudo aquilo que conhecíamos como potencialmente funcionante é derrubado. Nestes momentos, todos os mecanismos de atuação que conhecemos parecem falhar-nos. Desorganizamo-nos quer em comportamento, quer em pensamento, quer em emoção. Não serão raros os casos de pessoas que terão amigos, familiares ou conhecidos, que em momentos de desespero pediram a morte. Quando encaramos de frente a perspetiva de finitude, simbolizada num processo de doença ou na dor, encaramos de frente a nossa fragilidade humana, a nossa noção mais clarificada que, apesar de homens pensantes - sapiens, não somos divindades de ouro. Cai-nos a máscara com que aprendemos a representar no nosso mundo. Causa isto uma dor emocional excruciante. A par desta constatação anda o medo de dependência e de depender dos cuidados de terceiros. Construímos na modernidade e pós-modernidade este conceito que somos individuais, única e exclusivamente responsáveis pela nossa deambulação neste mundo, livres de pensamento e de vivência, livres da longínqua noção de que se nos afastarmos do clã não sobreviveremos. Pois bem, a doença é a noção mais clara de que tal poderá não ser uma premissa obrigatória. Qual será o problema de reaprendermos novamente a depender um pouco uns dos outros, reaprender a querer cuidar, em nome próprio ou em nome da tão falada compaixão altruísta?  Evolutivamente, temos percorrido mutáveis caminhos que mudam até onde a nossa imaginação humana permite: desde as sociedades nómadas – que abandonavam os mais frágeis, os doentes, idosos ou crianças (que residualmente ainda se encontram em alguns povos), passando mais contemporaneamente, pela teoria desvinculação social – que condenava o envelhecimento à morte social, até chegar à noção actual de códigos de conforto e bem-estar, de envelhecer ativamente e ter a possibilidade de viver com uma doença crónica. O que espera a sociedade de nós neste momento? Que nos livremos do mais frágil do clã, ou que o capacitemos com todos os avanços de que dispomos?

Isto leva-me à noção de que individualmente já não estamos habituados, enquanto sociedade "clean", a tolerar ver ou sentir que podemos sofrer. Porém, parte da nossa condição humana não deificada pressupõe deterioração, perda, reactualização de função. No limite do nosso tão bem evoluído cérebro, reside a capacidade cognitiva de pensar os nossos próprios pensamentos, suportada pela razão – se estiver asséptica de doença mental ou imposição moral, pelo que é imperativo que se observe e tenha conhecimento da moral coletiva, é necessário olhar para as conservas sociais que, num dado momento ou lugar nos moldam o pensar e nos retiram a liberdade de fazer escolhas conscientes.

Mas não é de momentos de crise que vive esta discussão sobre a despenalização da eutanásia. Aparenta ser movida por situações em que exista “lesão definitiva ou doença incurável e fatal e em sofrimento duradouro e insuportável”, tendo as pessoas direito a tudo o que de melhor existe em medicina. Pois bem, ainda assim, a razão turva-se quando o sofrimento é duradouro e insuportável. Em condições de dor, a curva de desespero acompanha-a, a curva de emoção negativa igualmente. Terá a pessoa acesso a todas as medidas conhecidas para aliviar a sua dor, para que tome uma decisão livre sobre o destino a dar à sua vida? Estarão as equipas hospitalares a servir bem os seus doentes? Estarão os médicos preparados para se confrontar com a sua incapacidade de curar? Terá a pessoa sido informada de que, apesar de existir lesão definitiva, existe possibilidade de reatualizar o seu espectro de funcionalidade e crenças nucleares?Além do mais, importa referir que não se palia só a dor física, palia-se a dor psíquica, do próprio e da família - núcleos da actuação das equipas de cuidados paliativos. Equipas que cuidam - não matam, preparam o luto, cuidam do que existe. Até que ponto, apesar de incurável, uma doença não pode ser integrada num espectro de vida? De que tipo de doença incurável falamos quando redigimos assim uma questão legal? Onde fica englobada a doença mental? E a demência? E quem vai atestar capacidades de decisão? Ainda neste ponto, indago-me sobre o que aconteceria se, enquanto sociedade, tivessemos mais tempo e a protecção (em termos de salvaguarda das nossas necessidades económicas) para nos mantermos ao lado de quem amamos e de quem gostariamos de cuidar. Até quando vamos continuar a avançar em frente para uma realidade asséptica sem tentar recuperar os afectos?

Paliar até ao fim. Se é paliativo procura-se o conforto, sabendo que o final da linha é a morte que, a meu ver, é bastante oposto à eutanásia – morte provocada. É impensável que, por vezes, se fundam estes dois conceitos, como já tive oportunidade de ler: “há médicos que já administram drogas para os doentes morrerem mais depressa”. E claro que, iniciando uma discussão sobre a eutanasia, todos os temas escondidos com o rabo de fora vêm ao de cima. E sou a favor que devam vir e que se discutam todos e que se priorizem questões. Não são mutuamente exclusivos, são componentes para um saudável juízo crítico. Em medicina há muito se encara a vida e a morte. Importante, a meu ver, é continuar a ensinar nas escolas médicas, que não somos deuses, que não devemos suportar a vida a qualquer custo, que acima de tudo devemos ponderar a decisão que mais bem sirva a pessoa (toda ela - sem divisões cartesianas) e na melhor qualidade possível, até onde saibamos ir e sempre conscientes da existência da finitude.

Continuando, o estatuto de quem retira a vida deve ficar bem esclarecido. Poderá ser englobado na definição de acto médico? Ou fusionamos conceitos: eutanásia-suicídio assistido? Aqui entra a tríade lei, moral e bioética. E é neste ponto que temos de tocar a questão legal da auto-determinação, bem explicito na Constituição Portuguesa desde 1976 “direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão”. A pessoa não deverá ver na figura do estado, uma limitação às suas decisões sobre como, de forma singular, decide encaminhar a sua vida até à morte. Aqui entra a despenalização de quem decida pela eutanásia e de quem queira suportar e veicular essa decisão. A meu ver, deverão saber que podem estar a colocar o direito à escolha da morte sobre a ideia de auto-determinação, baseando esta decisão numa orientação por terceiros (quando existir), e numa ausência de um sistema desenvolvido, que veja contemplada uma cabal avaliação médico-psiquiátrica e adequada atenção por cuidados paliativos. Será utópico pegarmos nesta ideia de que "já se faz" e tapar o sol com a peneira. E mesmo que se faça em alguns lugares, certamente não se faz de forma equitativa por todo o território português. Até quando vamos continuar a legislar friamente, ignorando esta noção que em saúde ainda há “portugueses de primeira e de segunda?”.

Mais directamente na minha área, em psiquiatria, quem observa pessoas que tentam o suicídio, ou pessoas que recorrem ao serviço de urgência verbalizando ideação suicidária, saberá esclarecer que muitos deles se encontram deprimidos. Há outros casos, não raros, que trazem a ideia da morte como possibilidade. Neste caso, é importante que se esclareça o quão distintos são estes dois conceitos. Num existe a visão clara de término, de se matar - ideação suicida. Noutro a ideia de que o presente é doloroso, pouco aceitável e aparentemente imutável, pendendo os pratos da balança para a morte - ideias de morte. Aqui chamo o conceito de ambivalência. Este que me acompanha o discurso e este, que se coloca frequentemente e até ao fim. A mesma ambivalência que acompanha muitas pessoas que se atiram de uma janela, mas que se agarram ao primeiro toldo, ou que relatam que, nos últimos segundos, perceberam que queriam ser salvos. Apesar da certeza suicidária de algumas pessoas, nunca teremos a firme certeza do que passa no segundo antes da sua morte efetiva. Além do mais, a nossa essência reside no mutável. O que pensamos hoje pode estar bem longe do que pensamos amanhã, tal como o nosso estado emocional – não é uma linha isoelétrica, longe disso. As ideias de morte acompanham-nos enquanto humanos, são parte de nós desde que começámos a pensar, há mais de 70.000 anos. Quanto ao suicídio, associado a plano mais ou menos estruturado e quanto à certeza ou calma suicidária, sabe-se que estão moldadas por uma distorção do instinto de sobrevivência “eros”, sabendo-se ainda que muitas das vezes surgem enquadradas em quadros depressivos major que devem ser identificados e abordados.

As minhas perguntas são muitas e as minhas dúvidas infinitas. Não querendo ser moralista ou julgadora, mas pretendendo pôr em palavras o quão delicada me parece a questão para que se discuta apenas com visão unipolar, clubística ou modelada por experiências prévias que podem não exemplificar com clareza todas as possibilidades disponíveis.

Certo que algumas revoluções se iniciam antes de se clarificar o pensamento das massas. Será isso que tentamos?

Quando não sabemos algo devemos ir à procura, investigar, repensar. Uma resposta só não nos deve bastar. Posicionando-me nesta dicotomia fria do sim ou não, o meu espectro atual pesa-me para o não, claramente moldada pela ambivalência em que me coloco nestas variáveis tão pouco exploradas.

Mas acima de tudo, coloco-me redondamente num não à vida em sofrimento – até onde possamos e saibamos intervir. E de forma equalitária para todos. Será isto possível e de forma sequencial?

 

Termino com um poema do José Gomes Ferreira

 

"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,

a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã

com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."


Divagações de tempos com tempo.

por Joana Raposo Gomes, em 15.10.17

Li há uns dias, que patologizar o luto é patologizar o amor. Resultou-me em verdade. Dizia o autor, que o luto sentido é proporcional ao amor, que há lutos fugazes e lutos eternos.

Assim o creio.

Falemos da depressão pela perda – diferente daquela que tendencialmente mais vejo: depressão por insucesso; pode/deve ser abordada, em que situações e quais os limites temporais? São questões que nos colocam no limiar da dúvida, onde os estudos científicos tentam dar respostas consoante a média, a mediana e o desvio padrão calculados, seis meses, nove meses, um ano "nem pensar". O que a calculadora e os calculantes talvez ponham de lado, é que lidamos com "o outro", com uma substância emocionalmente corporalizada onde reside um cérebro - isso é tão plural que deixa os números confusos. Não estamos ocidentalmente habituados a conviver com o sofrimento, com a dor e com a tristeza, como se subitamente ela tivesse saído fora dos nossos dias. Nada mais errado. Ganhou foi outras formas, outra penugem. Dizermos "anda lá! não fiques assim! vá lá, para a frente!", decidindo prontamente que aquela pessoa não pode continuar a estar triste, é uma mensagem directa ao coração de quem sofre "não quer mais lidar com o meu sofrimento". Daí para a solidão é um passo. Sentimento poderoso na hora do desamparo, da não pertença - acaba a resiliência e estoicismo.

Colocar o individuo no espaço/tempo favorável para dar rumo à sua dor é importante. Dar-lhe a disponibilidade necessária para que se afaste e se repare, dar-lhe tempo para sentir o grau de sofrimento que sente, podendo até encontrar algum conforto nesse pesar, até que dure ou até que lhe seja pesado demais. Aí os vínculos pré-estabelecidos são fundamentais. Se é demasiado - tenho a quem recorrer. Se adoeço fisica e/ou mentalmente - tenho a quem recorrer. Não há abandono - há disponibilidade.

Temos tendência a colocar tudo num espectro binário - bem vs mal, no entanto, num espectro de realidade aristotélico, o bem e o mal são indissociáveis. Cada parte do ser tem vários bens e vários males e, na sua multiplicidade, não podem apartar-se da variável tempo. O que pode ser mau hoje, pode ser uma benção amanhã. Por isso, uma pessoa em sofrimento deverá ser enquadrada: no momento em que sofre, no quanto se sente capaz de sofrer e no quanto se sente na disponibilidade aguentar.

Num momento, podemos ver um tenebroso desespero, no outro podemos ver um olhar limpo e mais claro.

Como faremos para reduzir a nossa pulsão para curarmos a nossa própria angústia ao receber o sofrimento dos outros? Trabalhar a nossa própria capacidade de absorver o outro é importante, e é essencial que saibamos que a pessoa precisa de alguém para utilizar – terapeuta, amigo, família, conhecido. Deixemo-nos ser utilizados – caso sintamos que temos algo para dar. Mais que isto, pode ser necessário mostrar ao outro que nos pode utilizar - contrariamente ao positivismo que nos incita a ser o centro do mundo, sempre a amarmo-nos e sempre a cultivarmo-nos de fora para dentro.

Encontro benefício em dirigir o olhar para fora, em criar um cone de visão mais amplo e compreensivo, não julgador. Querer compreender. Querer disponibilizar. Uma questão de empatia? Empatia até se vai tendo alguma. Quantas vezes não nos passa pela cabeça “é x ou y que a pessoa está a precisar” e quantas vezes escolhemos a cara de paisagem em vez de agirmos em conformidade? Logo, o que se põe em causa não são as nossas capacidades empáticas mas só parte delas – a acção. Estamos demasiado habituados a desistir – com medo do insucesso, da frustração, da não retribuição. Estaremos desconfiados? Como diluir essa desconfiança no outro? Ou será a nossa impressão de que nós próprios somos pouco confiáveis?

No tratamento de um processo de luto em que a ajuda se revela (ou foi revelada) necessária, atacar a perda ou a idealização que se tem do objecto perdido, parece-me uma loucura. Seria desconsiderar todo o amor - a única substância que nos resta do que perdemos e da qual não queremos abrir mão. E se nos focarmos na nutrição de quem sente a perda? Se lhe dermos espaço, tempo, compreensão, se desmistificarmos a pressa, se retirarmos o betão e colocarmos um espaço acolhedor? E se acarinharmos as qualidades que vão sobressaindo por entre a tristeza e a zanga? Se lhes abrirmos uma perspetiva de caminho? Se lhes dermos tempo para encontrar um novo lar e sentimento de pertença?

Tempo, essa variável tão preciosa que evolutivamente temos aprendido a relativizar e a ansiar a título de utopia.

Que o desenfrear de um crescimento e desenvolvimento cognitivo expectáveis de geração para geração, não nos turve a vontade de viver com a noção de que a comunicação digital é só um tipo de comunicação. O toque, a expressão, o silêncio, comunicam tanto ou mais que cada signo. Se não tivermos tempo, talvez nos percamos na frieza da barbaridade metálica. Os japoneses ensinam-nos, no seu percurso evolutivo, que o digital supera largamente o analógico, que o tempo é sucesso e tem cotação em bolsa, modificando-se a relação humana de tal forma, que a busca afectiva se corporaliza mais facilmente (ou exclusivamente) num café de gatos, do que num lar ou grupo cheio de amor. E eu adoro gatos, não me entendam mal.


Heróis do mar!

por Joana Raposo Gomes, em 14.05.17

 

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Os dias das vitórias heróicas sabem a êxtase português. E sabem bem. Só por um bocadinho assim. Subitamente somos inundados por um sentido comum brutal, onde o responsável pela vitória somos: Todos! Não importa se não somos católicos, ou se achamos o Papa só um homem como o nosso vizinho do lado (só que faz menos queixas e é mais simpático), em dia de Portugal, somos todos #chicos e subitamente tomados pela salvação divina (que bem precisamos, pese a nossa situação), paramos e vestimos de vermelho, porque Benfica é Portugal! E tendemos a achar que o nome Eusébio está na moda e chamamos Eusébio Santa Comba ao nosso herdeiro (ele sim, o salvador do nosso futuro!). Pensando bem, neste mar de vitória, numa estratégia ousada de marketing, eu se fosse o Salvador, passar-me-ia a chamar Sebastião Sobral (não muda muito e pode dar jeito). Porque nós Portugueses, ainda sofremos desse sebastianismo, desse "à espera que alguém venha de fora e nos auto-estime, que alguém desça dos céus e nos ilumine, que alguém (nós? Nunca!) pegue num microfone e faça uma canção para nos alegrar (mas calma lá, que só lá vamos bater palminhas se o indivíduo se mostrar promissor de vitória. Para segundo ou terceiro não vale a pena). Pois é, pelo menos desta vez, injectou-se uma dose do que pode ser música no coração da eurovisão. Mas nesta mesma noite, amanhã e nos próximos dias, os teatros continuarão vazios, os poetas serão loucos, os actores sem eira nem beira, os músicos a ter de servir às mesas, o ensino superior a emigrar e daqui por 1 ano, o Salvador até poderá ir às festas da cidade para encher a praça. Não porque é o Salvador Sobral, mas porque nos tirou momentaneamente do tédio e marasmo em que andamos. Pois é, o Salvador que potencialmente temos dentro de nós, continua hoje a rezar, ou de ressaca ou a limpar a casa. Fazer festa com a nossa tristeza pode ajudar, sim senhor. E identificarmo-nos alegremente, ainda mais. Mas na verdade, ontem cumpriu-se Deus, pátria e família e hoje não anda ninguém de cravos na mão. Tal como já andaram poucos cravos nas ideias de 74 - se assim tivesse sido, hoje éramos todos #Salvador como arquétipo de arte (da qual cuidaríamos diariamente) em vez de cantarmos este fado de fome descontente, continuamente à espera de um milagre, sem nos auto-estimarmos de dentro para fora. Eu acho que lá fora já olharam para nós, ou não estivéssemos sempre em várias miras. E nós, de que gostamos? Relaxem, aproveitem o Domingo, coisas chatas a esta hora desviam dessa embriaguez em recuperação e eu é que tenho liberdade a mais para escrever baboseiras destas. Minha culpa.


Ao meu pai

por Joana Raposo Gomes, em 19.03.17

Já vai tarde a hora do dia e a vontade de construir não me abandona. Vontade, essa que sempre me foi ensinada a cultivar, regar e fertilizar, como se fosse uma árvore, sim acho que era isso que via em mim, uma pequena árvore, com potencial de crescer e alargar raízes num solo fértil. E era assim que me sentia, uma pequena árvore, cheia de ilusões, sonhos e cabeça virada para o ar onde passavam as nuvens e os pássaros. Era fácil alimentar ilusões porque as raízes impediam que me virasse do avesso, raízes essas ancoradas num terreno firme, pouco propício a derrocadas, tirando um rolamento ou outro de um seixo, esses que aprendi a amar como se tivessem coração. Não sei ao certo onde começam amores como este, talvez só se definam quando eu própria conseguir ser um terreno firme para algum ser. A verdade, é que mesmo sem memória, consigo sentir como fui sonhada para crescer. Com asas, com firmeza, com esperança e com capacidade de reparação – sim, como aquelas estrelas do mar que, cortando-se-lhes uma parte, têm organização suficiente para se auto-repararem. Na verdade noto que é injusto dizer que me auto-reparava. Reparava-me porque me sentia abrigada, independentemente da força da tempestade, sentia que me deixava ir mais longe, que me podia erguer um pouco do solo firme sem nunca perder a conexão com a capacidade de voltar a ser recebida.

 

Não há forma de aceder à origem de tal amor, se me lembrasse desse dia, provavelmente lembrar-me-ia dos olhos de sonho com que fui olhada, dos olhos de ternura com que fui recebida, dos braços fortes em que fui embalada. Mas também me lembraria da primeira vez que vi os olhos de céu, convites ao ganhar de asas, essas que invejava aos pássaros. Ele sorria e dizia vão para bem longe, mas repara como eles voltam todas as primaveras e sabem sempre onde é casa. Quanto a mim, ouvia e pensava que isso eram tretas, não andavam de mapas, os pássaros quando seguiam rumo. Como saberiam onde voltar? E com isso desafiava as leis e os limites, especialmente aqueles que saíam no novo livro da ordem do ser, construindo-me por oposição, mantendo-me por identificação. E ele, ele nunca se zangava mais do que abrindo os olhos, bem redondos e firmes, mas ouvia-me e permitia-me argumentar.

 

Sempre fui de poucas palavras, ficava mais entregue ao que pensava e isso criava autênticos cenários de guerra na minha cabeça emaranhada, sem organização possível até poder esvaziar essas ideias num qualquer pedaço de papel ou num dos momentos em que ele puxava a ponta do novelo com a mestria de quem conseguia ler-me as expressões – por vezes bem mascaradas, por nem eu saber o que desenhar no meu rosto. Sem dúvidas e com ternura, sempre com a sabedoria que só associava àqueles velhos que via nos filmes – barba comprida, pouco vestidos e encobertos por névoas de fumo num qualquer espaço metafísico. Ali não, ali era só ele, de olhos de céu por vezes com nuvens, de bigode bem denso e mãos firmes em cima da mesa e sempre com tempo, sim tempo para escutar, para dar uma referência. Sentia-lhe por vezes o medo, medo de incerteza quando permitia que lhe pisasse a linha de giz e a cortina de linho que por vezes colocava entre mim e as minhas vontades. Podia dizer, como vem sendo costume, que regras e limites não têm lugar para medos e incertezas. Mas não, não digo. Antes consigo saber que isso dos olhos expectantes, pouco rígidos e tolerantes, ensina a abrir espectros de possibilidades, ensina que nem os sábios têm certezas e que, qualquer que fosse o caminho escolhido, não seria mais certo do que o outro. Qualquer que fosse o caminho, a coragem puxava para a frente, porque falíveis todos podemos ser, dizia-me. Além disso, a mala que me tem acompanhado vem cheia de apetrechos avessos a constructos sociais, mas tão úteis a este poder Ser eu pelos caminhos. Pouco feminina, maria rapaz, uma menina a andar de mota, onde já se viu mexer em electricidade, mulher a ver futebol, que irresponsabilidade andar por aí à noite, onde já se viu ler livros daqueles. A resposta vinha dele num sorriso entre o orgulhoso e o divertido, que aprendi a não querer desiludir. Não sei ao certo onde começou essa confiança. Talvez desde o dia em que caí nos paralelos, esfolei os joelhos e me ergui sem choro, com a ideia de lutar pela preservação dessa conquista - andar de bicicleta sem vigilância! Fofinho, o chão, dizia eu. Argumento enquistado na ideia de ser mais forte que a dor. E fui, porque continuei a conquistar terrenos e estradas, mas se bem me lembro, antes de andar sozinha já me tinha magoado com supervisão. No cimento, após aviso, umas gotas de sangue nos joelhos e o sorriso de quem está lá para amparar a dor e mostrar que podia continuar.

Embora tendesse a olhar para o céu, o meu olhar era sempre reorientado em forma de toque no ombro, olhar firme e ideias do que é ter respeito e compaixão enquanto nos fazemos ao caminho – como quando me disse para aceitar uma bolacha de umas mãos cheias de terra, de um senhor cheio de amor. Aceitei, com a calma de quem recebe a mensagem do que é partilhar o amor que sente.

 

Não há forma de falar de um amor assim, de sorriso franco e luz que guia. Sempre espelho de confiança, sempre com um molho de chaves a chocalhar no bolso ou nas mãos, e que me fazia crer que podia abrir todas as portas que quisesse - bastava conseguir conquistar respeito, passaporte para a chave certa. O amor, quando é assim tão grande, faz-nos olhar sem reservas, ensina-nos a sorrir, por nos sorrir de volta, ensina-nos a chorar, por nos permitir a dor, ensina-nos a reparar, por nunca nos negar o abraço. É a permanência, firmeza e luz que conhecemos ao Farol. Pai que guia no perigo, mas assinala o ponto de regresso, caso queiramos – porque sabemos que queremos voltar.

 

19 Março 2017


Ode à falta.

por Joana Raposo Gomes, em 28.11.16

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 (Mark Rothko, 1958)

Foquemo-nos nas despedidas: abraçamo-nos, beijamo-nos e, confortavelmente, brindamos olhares com um até já. Aliviamos, nesse até já, o medo de que não exista reencontro, juntando-lhe a certeza daquele telefonema, daquela mensagem escrita, daquele e-mail, daquele post no facebook, daquela imagem no instagram, daquela sempre presença em todo o lado, sozinhos nunca, obrigada não é preciso e mesmo que seja preciso, não é possível.

 

Aí vamos nós, viramos costas, confortáveis, sem a angústia da incerteza. Viramos as costas, como se a qualquer momento, pudéssemos dar mais uma lambidela naquele doce que temos como garantido. Prazer e conforto, à distância de um ecrã, pequeno ou grande, tanto dá, desde que lá caiba o que procuramos para engordarmos a sensação anunciada da falta. Falta de quê? Pouco paramos para pensar na falta que sentimos. Tal como a sede e a fome se confundem e enganam a nossa percepção, as nossas faltas de algo também parecem estar pouco claras no nosso universo. A falta, seja do que for, é preenchida com o ritual, com a caloria rapidamente absorvível, que vai directa para as ancas, mal se lhe sentiu o sabor.

 

Naquele virar de costas, naquela despedida breve, naquele até já com retorno, onde há lugar para a força do abraço ou do beijo? Onde olhámos fotograficamente os olhos dos que nos diziam algo? Onde gravamos as palavras dos que nos sussurraram algo tímido, envolto na vergonha de expressão emocional, essa que está reservada às florzinhas? Para quê, não é? Ao menor sinal de lembrança, memória ou curiosidade, basta abrir os olhos ou atender o telefone. Lá está. Nada de faltas, nada de saudades. Ah isso, coisa do passado Português! Saudades, essas que, segundo dizem, nos impulsionam para trás e não nos deixam ser bons com os números da economia.

 

Adeus à falta! Já não sentimos falta de ninguém, estamos sempre juntos, sempre disponíveis, sempre contactáveis, sempre a nú. Moramos na janela indiscreta e somos o voyeurismo que, de boca escandalosamente aberta, criticamos – inaceitável, meus caros! Isso é coisa de tarados! Qual quê! Já não desejamos ninguém no anonimato, na ideia quase cósmica de que os pensamentos se possam cruzar na linha do tempo. Bip Bip Mensagem escrita: também penso em ti, querida.

 

Vivemos no até já, no encontro rápido, no ultra-rápido e virtual, onde a emoção visceral está separada do encontro por um fosso. Sempre que quisermos, à hora que quisermos, a informação que desejarmos, o que faz com que não haja espaço para a imaginação do encontro, para o desenhar da expectativa e para o tolerar da frustração. O homem, esse gosta é da pornografia da notícia. O silêncio não é boa notícia, como alguns tacanhos do antigamente alguma vez pensaram. Provavelmente, sem darmos noticias, sairemos no jornal como desaparecidos, acidentados, assassinados e rapidamente seremos esquecidos. Daqui é um passo para o aumento das nossas ansiedades de aniquilação. O medo do esquecimento povoa-nos assim o subconsciente. Medo de nos volatilizarmos se nos mantivermos fora da tendência da sobrepresença.

 

Em sobrepresença, desinteressamo-nos pelo pormenor, dominados que estamos pela ideia utópica de satisfação à distancia de um botão.

Sempre lá, sempre cheios de amizades, sempre rodeados de presenças. Mas, quais dessas já nos quiseram ouvir e saber? E quais desses momentos foram exclusivos, com interesse genuíno na partilha? Quantas vezes foi cultivada a força do adeus, esse que encerra a conversa e alimenta, caso seja caso disso, o desejo do reencontro?

Nunca estamos sós. Abaixo a saudade. Se nos vemos ou falamos no imediato, a beleza da falta não nos move, procuramo-nos menos – pelo menos com menor motivação para o outro.

E nas poucas faltas que sentimos, o prazer será rapidamente alimentado, sem acumular o negativo da espera e do desejo. Procuramos o positivismo do imediato, sem nos darmos conta que destruímos a profundidade dos estados emocionais mais construídos, sem vermos o que de belo pode existir na ansiedade da espera.

 

As folhas brancas das cartas sofrem desse mal, do mal da ausência. Olham-nos e entram-nos nos pensamentos, forçam-nos a imaginar o rosto de quem nos faz falta, satisfazem-nos na certeza de sermos ouvidos, mesmo sem maquilhagem e sem selfie.

Sem falta e com noticias instantâneas, cuidamos menos, surpreendemo-nos nunca. Não existem abraços viscerais ou medo do não regresso. Estamos sempre perto, sem ser notada a solidão que está remetida ao interior de cada um. Há um convencimento geral de segurança grupal, onde cada qual pouco sabe da existência real do outro e onde não há espaço para a criação através da lembrança.

A tendência continua epopeica: vivemos em corpos emprestados, de homens irremediavelmente sós.

 

 

Que se reproduzam as excepções.

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