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ruído

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Divagações de tempos com tempo.

por Joana Raposo Gomes, em 15.10.17

Li há uns dias, que patologizar o luto é patologizar o amor. Resultou-me em verdade. Dizia o autor, que o luto sentido é proporcional ao amor, que há lutos fugazes e lutos eternos.

Assim o creio.

Falemos da depressão pela perda – diferente daquela que tendencialmente mais vejo: depressão por insucesso; pode/deve ser abordada, em que situações e quais os limites temporais? São questões que nos colocam no limiar da dúvida, onde os estudos científicos tentam dar respostas consoante a média, a mediana e o desvio padrão calculados, seis meses, nove meses, um ano "nem pensar". O que a calculadora e os calculantes talvez ponham de lado, é que lidamos com "o outro", com uma substância emocionalmente corporalizada onde reside um cérebro - isso é tão plural que deixa os números confusos. Não estamos ocidentalmente habituados a conviver com o sofrimento, com a dor e com a tristeza, como se subitamente ela tivesse saído fora dos nossos dias. Nada mais errado. Ganhou foi outras formas, outra penugem. Dizermos "anda lá! não fiques assim! vá lá, para a frente!", decidindo prontamente que aquela pessoa não pode continuar a estar triste, é uma mensagem directa ao coração de quem sofre "não quer mais lidar com o meu sofrimento". Daí para a solidão é um passo. Sentimento poderoso na hora do desamparo, da não pertença - acaba a resiliência e estoicismo.

Colocar o individuo no espaço/tempo favorável para dar rumo à sua dor é importante. Dar-lhe a disponibilidade necessária para que se afaste e se repare, dar-lhe tempo para sentir o grau de sofrimento que sente, podendo até encontrar algum conforto nesse pesar, até que dure ou até que lhe seja pesado demais. Aí os vínculos pré-estabelecidos são fundamentais. Se é demasiado - tenho a quem recorrer. Se adoeço fisica e/ou mentalmente - tenho a quem recorrer. Não há abandono - há disponibilidade.

Temos tendência a colocar tudo num espectro binário - bem vs mal, no entanto, num espectro de realidade aristotélico, o bem e o mal são indissociáveis. Cada parte do ser tem vários bens e vários males e, na sua multiplicidade, não podem apartar-se da variável tempo. O que pode ser mau hoje, pode ser uma benção amanhã. Por isso, uma pessoa em sofrimento deverá ser enquadrada: no momento em que sofre, no quanto se sente capaz de sofrer e no quanto se sente na disponibilidade aguentar.

Num momento, podemos ver um tenebroso desespero, no outro podemos ver um olhar limpo e mais claro.

Como faremos para reduzir a nossa pulsão para curarmos a nossa própria angústia ao receber o sofrimento dos outros? Trabalhar a nossa própria capacidade de absorver o outro é importante, e é essencial que saibamos que a pessoa precisa de alguém para utilizar – terapeuta, amigo, família, conhecido. Deixemo-nos ser utilizados – caso sintamos que temos algo para dar. Mais que isto, pode ser necessário mostrar ao outro que nos pode utilizar - contrariamente ao positivismo que nos incita a ser o centro do mundo, sempre a amarmo-nos e sempre a cultivarmo-nos de fora para dentro.

Encontro benefício em dirigir o olhar para fora, em criar um cone de visão mais amplo e compreensivo, não julgador. Querer compreender. Querer disponibilizar. Uma questão de empatia? Empatia até se vai tendo alguma. Quantas vezes não nos passa pela cabeça “é x ou y que a pessoa está a precisar” e quantas vezes escolhemos a cara de paisagem em vez de agirmos em conformidade? Logo, o que se põe em causa não são as nossas capacidades empáticas mas só parte delas – a acção. Estamos demasiado habituados a desistir – com medo do insucesso, da frustração, da não retribuição. Estaremos desconfiados? Como diluir essa desconfiança no outro? Ou será a nossa impressão de que nós próprios somos pouco confiáveis?

No tratamento de um processo de luto em que a ajuda se revela (ou foi revelada) necessária, atacar a perda ou a idealização que se tem do objecto perdido, parece-me uma loucura. Seria desconsiderar todo o amor - a única substância que nos resta do que perdemos e da qual não queremos abrir mão. E se nos focarmos na nutrição de quem sente a perda? Se lhe dermos espaço, tempo, compreensão, se desmistificarmos a pressa, se retirarmos o betão e colocarmos um espaço acolhedor? E se acarinharmos as qualidades que vão sobressaindo por entre a tristeza e a zanga? Se lhes abrirmos uma perspetiva de caminho? Se lhes dermos tempo para encontrar um novo lar e sentimento de pertença?

Tempo, essa variável tão preciosa que evolutivamente temos aprendido a relativizar e a ansiar a título de utopia.

Que o desenfrear de um crescimento e desenvolvimento cognitivo expectáveis de geração para geração, não nos turve a vontade de viver com a noção de que a comunicação digital é só um tipo de comunicação. O toque, a expressão, o silêncio, comunicam tanto ou mais que cada signo. Se não tivermos tempo, talvez nos percamos na frieza da barbaridade metálica. Os japoneses ensinam-nos, no seu percurso evolutivo, que o digital supera largamente o analógico, que o tempo é sucesso e tem cotação em bolsa, modificando-se a relação humana de tal forma, que a busca afectiva se corporaliza mais facilmente (ou exclusivamente) num café de gatos, do que num lar ou grupo cheio de amor. E eu adoro gatos, não me entendam mal.

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