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Direito a desligar do trabalho

por Joana Raposo Gomes, em 07.01.17

 

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Direito a desligar do Trabalho?

Do que as ilusões por vezes carecem, é do gatilho para a acção. Sou eu que o digo, porque alguém já algum dia o pensou. A ilusão da liberdade e responsabilidade laboral povoa-nos há muito o imaginário – pelo menos o dos reformistas e apelidados revolucionários. O tema é antigo, os contornos vão-se actualizando, sinal dos tempos tecnológicos.

 

A questão que está na mesa, é a do direito a desligar a conectividade com o mundo laboral. Isto colocará o coração na boca a muita gente, desenhando um sim bem redondo e audível no universo de uns, e uma desatenção em forma de resistência, àqueles para os quais trabalhar é um prazer ou forma de ser.

 

Mas se temos direito a desligar do trabalho? Pois com certeza depende do que entendermos por trabalho! Nem todo o trabalho é mau, nem todo o trabalho é emprego e nem todo o emprego é coisa boa.

 

O que sei, é que todos devemos ter direito a ligar ao prazer, ao amor e à satisfação.

 

Obviamente não existirão reacções universais a este tema e, para que compreendamos o porquê, é essencial que se equacionem dois cenários pouco cooperantes.

O primeiro grupo, engloba os apaixonados pela sua actividade laboral - que, por sorte, dela retiram prazer; no mesmo grupo os que estando cegamente envolvidos pelo trabalho, substituem amor por valorização laboral, sorvendo-a até apaziguar o vazio de auto-estima e amor-próprio independente da tarefa - exímios trabalhadores; e ainda o caso dos masoquistas, que andam de braço dado com o prazer e a dor de uma actividade laboral preenchida.

Este grupo, alimentado e realizado pela constância do objecto laboral, não compreenderá – do seu ponto de vista pouco mutável, que existirão outros pares, o segundo grupo, que todos os dias esperam ansiosamente pelo soar do bater da porta contra a exploração e precariedade ou simplesmente, contra a obrigatoriedade pela necessidade - onde não há lugar para o princípio do prazer; do mesmo lado da moeda, estão aqueles que conseguem idealizar outros interesses satisfatórios fora do horário laboral - chegam a horas e gostam de sair a horas. Em suma, o grupo dos que ficam mesmo apaixonados com a chegada da hora de ir para casa.

O que me parece certo é que a lei, a existir, deverá favorecer aqueles a quem não está acessível o convívio com chefias detentoras de um pensamento com moralidade interna. Isto é, que ofereça protecção contra chefes endiabrados e ditadores mais ou menos camuflados. E situações de abuso, todos nós sabemos que existem, quer seja sob capa de medo, quer pela mentira perversa que floresce facilmente em terrenos mais ingénuos, onde domina a necessidade – enquanto falta. “Com engenho e arte, o medo chega a toda a parte”*1. É neste medo que se perpetuam comportamentos pouco sãos, como por exemplo não vivenciar plenamente momentos de lazer ou descanso - já de si tão escassos, sob a pena de poderem ter a sua cadeira ocupada no dia seguinte.

 

O clima de subserviência laboral está já de tal forma instalado, que se algum dia a necessidade de prazer bate à porta, ou se é satisfeita a necessidade de descanso merecido, surge a culpa a dominar o estado psíquico, antecipando-se uma punição merecida "por minha culpa, minha tão grande culpa".

E mais, uma ideia colectiva de subserviência ou conformismo, adquire contornos débeis e vai-se caminhando num distanciamento da realidade, sem acção, sem entusiasmo, um marasmo do deixa andar. “A vida é mesmo assim... Viemos ao mundo para sofrer! Olhe, vai-se andando, nunca pior!” O tanas!

A verdade é que, neste domínio da valorização pelo abuso, as pessoas se defendem primariamente pela auto-comiseração, amparando-se no sofrimento aceitável, como um caminho para a salvação. Como? Projectando a sua raiva, inaceitável em tão samaritano agir, naquele que, corajosamente se insurge e sai a horas. Esse será, claramente, o alvo a abater, o primeiro a esquartejar para ganhar mais e melhor amor empresarial.

 

A lei neste caso, faz sentido na protecção destas situações, mantendo uma divulgação atenta, da possibilidade de agir contra situações intimidatórias e, por isso, criminosas.

Aos líderes, os verdadeiros elementos sanígenos, seres em vias de extinção, não ficaria vedada a possibilidade de continuarem a gerir os seus trabalhadores num ambiente de responsabilização individual, de capacidade de ponderar equitativamente lazer e produtividade. Satisfeitos e saudáveis, ninguém adoeceria se abrisse o e-mail por auto-gestão e em total liberdade.

Aos chefes tiranos, de núcleos anti-sociais, apologistas da precariedade e poder sádico - sempre existiram e continuarão a existir, ficaria uma nuvem de possível responsabilização, que a meu ver, protegerá a saúde mental dos trabalhadores, já de si tão fragilizada e tão pouco amparada.

 

O medo faz parte do homem, mas não deve inibir-lhe a acção, quando ponderado o bem-estar indivídual de cada um. Isso é um medo patológico, um medo instilado a partir de fora. Estamos a ficar demasiado acostumados a ele e isso sim, deve ficar fora do cartório evolutivo das relações.

 

As mudanças, mesmo as mais pequenas, levam tempo. O ideal, seria criar uma Nova Relação*2, menos saturada, mais criativa, onde se reflicta sobre o que se sabe, e com isso se possa aceder ao sentido de responsabilidade interna, movida pela empatia e compaixão. Utopias, bem sei, ou coisas de revolucionários. Prefiro continuar a sonhá-las e mais, a tomar-lhes o gosto pela acção e validação de outras acções.

Assim, aceito de bom grado e defendo que se usem e elaborem leis, no seu sentido mais protector e menos autoritário, mas que acima de tudo se continue a educar para a curiosidade e não para o conformismo e inibição do pensar.

  

 

 

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*1 – A Instalação do Medo, Rui Zink

*2 – Relação de Qualidade, António Coimbra de Matos, Climepsi Editores

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