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ruído

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Da fragilidade da condição humana à eutanásia

por Joana Raposo Gomes, em 27.05.18

Começo pelo princípio de quem tem dúvidas. Imensas. Mesmo enquanto escreve. Assumo ainda a minha visão: médica, ligada à saúde mental e apoiada pela razão que tento encontrar nos dias.

Amor e morte – os polos por entre os quais nos movemos. A doença coloca-nos perto do instinto de morte - tanatos, mas não necessariamente na premissa de que o iremos escolher – em vida. Perante a fragilidade, os nossos sentidos reatualizam-se e confrontamo-nos com um período de crise no qual tudo aquilo que conhecíamos como potencialmente funcionante é derrubado. Nestes momentos, todos os mecanismos de atuação que conhecemos parecem falhar-nos. Desorganizamo-nos quer em comportamento, quer em pensamento, quer em emoção. Não serão raros os casos de pessoas que terão amigos, familiares ou conhecidos, que em momentos de desespero pediram a morte. Quando encaramos de frente a perspetiva de finitude, simbolizada num processo de doença ou na dor, encaramos de frente a nossa fragilidade humana, a nossa noção mais clarificada que, apesar de homens pensantes - sapiens, não somos divindades de ouro. Cai-nos a máscara com que aprendemos a representar no nosso mundo. Causa isto uma dor emocional excruciante. A par desta constatação anda o medo de dependência e de depender dos cuidados de terceiros. Construímos na modernidade e pós-modernidade este conceito que somos individuais, única e exclusivamente responsáveis pela nossa deambulação neste mundo, livres de pensamento e de vivência, livres da longínqua noção de que se nos afastarmos do clã não sobreviveremos. Pois bem, a doença é a noção mais clara de que tal poderá não ser uma premissa obrigatória. Qual será o problema de reaprendermos novamente a depender um pouco uns dos outros, reaprender a querer cuidar, em nome próprio ou em nome da tão falada compaixão altruísta?  Evolutivamente, temos percorrido mutáveis caminhos que mudam até onde a nossa imaginação humana permite: desde as sociedades nómadas – que abandonavam os mais frágeis, os doentes, idosos ou crianças (que residualmente ainda se encontram em alguns povos), passando mais contemporaneamente, pela teoria desvinculação social – que condenava o envelhecimento à morte social, até chegar à noção actual de códigos de conforto e bem-estar, de envelhecer ativamente e ter a possibilidade de viver com uma doença crónica. O que espera a sociedade de nós neste momento? Que nos livremos do mais frágil do clã, ou que o capacitemos com todos os avanços de que dispomos?

Isto leva-me à noção de que individualmente já não estamos habituados, enquanto sociedade "clean", a tolerar ver ou sentir que podemos sofrer. Porém, parte da nossa condição humana não deificada pressupõe deterioração, perda, reactualização de função. No limite do nosso tão bem evoluído cérebro, reside a capacidade cognitiva de pensar os nossos próprios pensamentos, suportada pela razão – se estiver asséptica de doença mental ou imposição moral, pelo que é imperativo que se observe e tenha conhecimento da moral coletiva, é necessário olhar para as conservas sociais que, num dado momento ou lugar nos moldam o pensar e nos retiram a liberdade de fazer escolhas conscientes.

Mas não é de momentos de crise que vive esta discussão sobre a despenalização da eutanásia. Aparenta ser movida por situações em que exista “lesão definitiva ou doença incurável e fatal e em sofrimento duradouro e insuportável”, tendo as pessoas direito a tudo o que de melhor existe em medicina. Pois bem, ainda assim, a razão turva-se quando o sofrimento é duradouro e insuportável. Em condições de dor, a curva de desespero acompanha-a, a curva de emoção negativa igualmente. Terá a pessoa acesso a todas as medidas conhecidas para aliviar a sua dor, para que tome uma decisão livre sobre o destino a dar à sua vida? Estarão as equipas hospitalares a servir bem os seus doentes? Estarão os médicos preparados para se confrontar com a sua incapacidade de curar? Terá a pessoa sido informada de que, apesar de existir lesão definitiva, existe possibilidade de reatualizar o seu espectro de funcionalidade e crenças nucleares?Além do mais, importa referir que não se palia só a dor física, palia-se a dor psíquica, do próprio e da família - núcleos da actuação das equipas de cuidados paliativos. Equipas que cuidam - não matam, preparam o luto, cuidam do que existe. Até que ponto, apesar de incurável, uma doença não pode ser integrada num espectro de vida? De que tipo de doença incurável falamos quando redigimos assim uma questão legal? Onde fica englobada a doença mental? E a demência? E quem vai atestar capacidades de decisão? Ainda neste ponto, indago-me sobre o que aconteceria se, enquanto sociedade, tivessemos mais tempo e a protecção (em termos de salvaguarda das nossas necessidades económicas) para nos mantermos ao lado de quem amamos e de quem gostariamos de cuidar. Até quando vamos continuar a avançar em frente para uma realidade asséptica sem tentar recuperar os afectos?

Paliar até ao fim. Se é paliativo procura-se o conforto, sabendo que o final da linha é a morte que, a meu ver, é bastante oposto à eutanásia – morte provocada. É impensável que, por vezes, se fundam estes dois conceitos, como já tive oportunidade de ler: “há médicos que já administram drogas para os doentes morrerem mais depressa”. E claro que, iniciando uma discussão sobre a eutanasia, todos os temas escondidos com o rabo de fora vêm ao de cima. E sou a favor que devam vir e que se discutam todos e que se priorizem questões. Não são mutuamente exclusivos, são componentes para um saudável juízo crítico. Em medicina há muito se encara a vida e a morte. Importante, a meu ver, é continuar a ensinar nas escolas médicas, que não somos deuses, que não devemos suportar a vida a qualquer custo, que acima de tudo devemos ponderar a decisão que mais bem sirva a pessoa (toda ela - sem divisões cartesianas) e na melhor qualidade possível, até onde saibamos ir e sempre conscientes da existência da finitude.

Continuando, o estatuto de quem retira a vida deve ficar bem esclarecido. Poderá ser englobado na definição de acto médico? Ou fusionamos conceitos: eutanásia-suicídio assistido? Aqui entra a tríade lei, moral e bioética. E é neste ponto que temos de tocar a questão legal da auto-determinação, bem explicito na Constituição Portuguesa desde 1976 “direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão”. A pessoa não deverá ver na figura do estado, uma limitação às suas decisões sobre como, de forma singular, decide encaminhar a sua vida até à morte. Aqui entra a despenalização de quem decida pela eutanásia e de quem queira suportar e veicular essa decisão. A meu ver, deverão saber que podem estar a colocar o direito à escolha da morte sobre a ideia de auto-determinação, baseando esta decisão numa orientação por terceiros (quando existir), e numa ausência de um sistema desenvolvido, que veja contemplada uma cabal avaliação médico-psiquiátrica e adequada atenção por cuidados paliativos. Será utópico pegarmos nesta ideia de que "já se faz" e tapar o sol com a peneira. E mesmo que se faça em alguns lugares, certamente não se faz de forma equitativa por todo o território português. Até quando vamos continuar a legislar friamente, ignorando esta noção que em saúde ainda há “portugueses de primeira e de segunda?”.

Mais directamente na minha área, em psiquiatria, quem observa pessoas que tentam o suicídio, ou pessoas que recorrem ao serviço de urgência verbalizando ideação suicidária, saberá esclarecer que muitos deles se encontram deprimidos. Há outros casos, não raros, que trazem a ideia da morte como possibilidade. Neste caso, é importante que se esclareça o quão distintos são estes dois conceitos. Num existe a visão clara de término, de se matar - ideação suicida. Noutro a ideia de que o presente é doloroso, pouco aceitável e aparentemente imutável, pendendo os pratos da balança para a morte - ideias de morte. Aqui chamo o conceito de ambivalência. Este que me acompanha o discurso e este, que se coloca frequentemente e até ao fim. A mesma ambivalência que acompanha muitas pessoas que se atiram de uma janela, mas que se agarram ao primeiro toldo, ou que relatam que, nos últimos segundos, perceberam que queriam ser salvos. Apesar da certeza suicidária de algumas pessoas, nunca teremos a firme certeza do que passa no segundo antes da sua morte efetiva. Além do mais, a nossa essência reside no mutável. O que pensamos hoje pode estar bem longe do que pensamos amanhã, tal como o nosso estado emocional – não é uma linha isoelétrica, longe disso. As ideias de morte acompanham-nos enquanto humanos, são parte de nós desde que começámos a pensar, há mais de 70.000 anos. Quanto ao suicídio, associado a plano mais ou menos estruturado e quanto à certeza ou calma suicidária, sabe-se que estão moldadas por uma distorção do instinto de sobrevivência “eros”, sabendo-se ainda que muitas das vezes surgem enquadradas em quadros depressivos major que devem ser identificados e abordados.

As minhas perguntas são muitas e as minhas dúvidas infinitas. Não querendo ser moralista ou julgadora, mas pretendendo pôr em palavras o quão delicada me parece a questão para que se discuta apenas com visão unipolar, clubística ou modelada por experiências prévias que podem não exemplificar com clareza todas as possibilidades disponíveis.

Certo que algumas revoluções se iniciam antes de se clarificar o pensamento das massas. Será isso que tentamos?

Quando não sabemos algo devemos ir à procura, investigar, repensar. Uma resposta só não nos deve bastar. Posicionando-me nesta dicotomia fria do sim ou não, o meu espectro atual pesa-me para o não, claramente moldada pela ambivalência em que me coloco nestas variáveis tão pouco exploradas.

Mas acima de tudo, coloco-me redondamente num não à vida em sofrimento – até onde possamos e saibamos intervir. E de forma equalitária para todos. Será isto possível e de forma sequencial?

 

Termino com um poema do José Gomes Ferreira

 

"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,

a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã

com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."

3 comentários

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    De Joana Raposo Gomes a 30.05.2018 às 18:29

    Obrigada pela leitura, David :)
  • Sem imagem de perfil

    De David Marinho a 06.06.2018 às 15:31

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