Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

ruído

ruído


Ao meu pai

por Joana Raposo Gomes, em 19.03.17

Já vai tarde a hora do dia e a vontade de construir não me abandona. Vontade, essa que sempre me foi ensinada a cultivar, regar e fertilizar, como se fosse uma árvore, sim acho que era isso que via em mim, uma pequena árvore, com potencial de crescer e alargar raízes num solo fértil. E era assim que me sentia, uma pequena árvore, cheia de ilusões, sonhos e cabeça virada para o ar onde passavam as nuvens e os pássaros. Era fácil alimentar ilusões porque as raízes impediam que me virasse do avesso, raízes essas ancoradas num terreno firme, pouco propício a derrocadas, tirando um rolamento ou outro de um seixo, esses que aprendi a amar como se tivessem coração. Não sei ao certo onde começam amores como este, talvez só se definam quando eu própria conseguir ser um terreno firme para algum ser. A verdade, é que mesmo sem memória, consigo sentir como fui sonhada para crescer. Com asas, com firmeza, com esperança e com capacidade de reparação – sim, como aquelas estrelas do mar que, cortando-se-lhes uma parte, têm organização suficiente para se auto-repararem. Na verdade noto que é injusto dizer que me auto-reparava. Reparava-me porque me sentia abrigada, independentemente da força da tempestade, sentia que me deixava ir mais longe, que me podia erguer um pouco do solo firme sem nunca perder a conexão com a capacidade de voltar a ser recebida.

 

Não há forma de aceder à origem de tal amor, se me lembrasse desse dia, provavelmente lembrar-me-ia dos olhos de sonho com que fui olhada, dos olhos de ternura com que fui recebida, dos braços fortes em que fui embalada. Mas também me lembraria da primeira vez que vi os olhos de céu, convites ao ganhar de asas, essas que invejava aos pássaros. Ele sorria e dizia vão para bem longe, mas repara como eles voltam todas as primaveras e sabem sempre onde é casa. Quanto a mim, ouvia e pensava que isso eram tretas, não andavam de mapas, os pássaros quando seguiam rumo. Como saberiam onde voltar? E com isso desafiava as leis e os limites, especialmente aqueles que saíam no novo livro da ordem do ser, construindo-me por oposição, mantendo-me por identificação. E ele, ele nunca se zangava mais do que abrindo os olhos, bem redondos e firmes, mas ouvia-me e permitia-me argumentar.

 

Sempre fui de poucas palavras, ficava mais entregue ao que pensava e isso criava autênticos cenários de guerra na minha cabeça emaranhada, sem organização possível até poder esvaziar essas ideias num qualquer pedaço de papel ou num dos momentos em que ele puxava a ponta do novelo com a mestria de quem conseguia ler-me as expressões – por vezes bem mascaradas, por nem eu saber o que desenhar no meu rosto. Sem dúvidas e com ternura, sempre com a sabedoria que só associava àqueles velhos que via nos filmes – barba comprida, pouco vestidos e encobertos por névoas de fumo num qualquer espaço metafísico. Ali não, ali era só ele, de olhos de céu por vezes com nuvens, de bigode bem denso e mãos firmes em cima da mesa e sempre com tempo, sim tempo para escutar, para dar uma referência. Sentia-lhe por vezes o medo, medo de incerteza quando permitia que lhe pisasse a linha de giz e a cortina de linho que por vezes colocava entre mim e as minhas vontades. Podia dizer, como vem sendo costume, que regras e limites não têm lugar para medos e incertezas. Mas não, não digo. Antes consigo saber que isso dos olhos expectantes, pouco rígidos e tolerantes, ensina a abrir espectros de possibilidades, ensina que nem os sábios têm certezas e que, qualquer que fosse o caminho escolhido, não seria mais certo do que o outro. Qualquer que fosse o caminho, a coragem puxava para a frente, porque falíveis todos podemos ser, dizia-me. Além disso, a mala que me tem acompanhado vem cheia de apetrechos avessos a constructos sociais, mas tão úteis a este poder Ser eu pelos caminhos. Pouco feminina, maria rapaz, uma menina a andar de mota, onde já se viu mexer em electricidade, mulher a ver futebol, que irresponsabilidade andar por aí à noite, onde já se viu ler livros daqueles. A resposta vinha dele num sorriso entre o orgulhoso e o divertido, que aprendi a não querer desiludir. Não sei ao certo onde começou essa confiança. Talvez desde o dia em que caí nos paralelos, esfolei os joelhos e me ergui sem choro, com a ideia de lutar pela preservação dessa conquista - andar de bicicleta sem vigilância! Fofinho, o chão, dizia eu. Argumento enquistado na ideia de ser mais forte que a dor. E fui, porque continuei a conquistar terrenos e estradas, mas se bem me lembro, antes de andar sozinha já me tinha magoado com supervisão. No cimento, após aviso, umas gotas de sangue nos joelhos e o sorriso de quem está lá para amparar a dor e mostrar que podia continuar.

Embora tendesse a olhar para o céu, o meu olhar era sempre reorientado em forma de toque no ombro, olhar firme e ideias do que é ter respeito e compaixão enquanto nos fazemos ao caminho – como quando me disse para aceitar uma bolacha de umas mãos cheias de terra, de um senhor cheio de amor. Aceitei, com a calma de quem recebe a mensagem do que é partilhar o amor que sente.

 

Não há forma de falar de um amor assim, de sorriso franco e luz que guia. Sempre espelho de confiança, sempre com um molho de chaves a chocalhar no bolso ou nas mãos, e que me fazia crer que podia abrir todas as portas que quisesse - bastava conseguir conquistar respeito, passaporte para a chave certa. O amor, quando é assim tão grande, faz-nos olhar sem reservas, ensina-nos a sorrir, por nos sorrir de volta, ensina-nos a chorar, por nos permitir a dor, ensina-nos a reparar, por nunca nos negar o abraço. É a permanência, firmeza e luz que conhecemos ao Farol. Pai que guia no perigo, mas assinala o ponto de regresso, caso queiramos – porque sabemos que queremos voltar.

 

19 Março 2017

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Favoritos